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Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá

Notícias

Rafael Forte

Jovens da Reserva Amanã, no Amazonas, realizam exposição fotográfica

12/02/2015


“A farinha é muito importante porque ela é comum. A farinha vem da mandioca, que tem muito mistério, porque dela são extraídos muitos tipos de alimento. Além da farinha, dá bolo de massa, dá também a goma, e da goma a gente ainda faz o tucupi e o beiju. Ela também é importante para a comunidade não só porque dela que os moradores se alimentam”.

As palavras que iniciam o texto são de um jovem, morador da comunidade São João do Ipecaçu, na Reserva Amanã (AM). O texto compõe a exposição “Fotovoz Reserva Amanã”, que apresenta fotografias e narrativas de moradores de comunidades ribeirinhas do Amazonas, uma maneira de apresentar o ponto de vista e a realidade desses jovens sobre a rotina das atividades produtivas das comunidades. O evento expositivo ocorreu nessa comunidade nos dias 07 e 08 de fevereiro.

O projeto Fotovoz foi desenvolvido no segundo semestre de 2014. A exposição reúne 27 histórias e fotografias produzidas pelos jovens de três comunidades ribeirinhas. Participaram cerca de 25 jovens entre 12 e 18 anos. “O Fotovoz é uma técnica que ajuda a criar familiaridade com quem você está trabalhando e também a elucidar os principais problemas de um certo grupo. Eu achei que seria uma boa técnica para criar familiaridade, pra eu entender o contexto em que esses jovens estão inseridos”, afirmou Ana Carolina de Lima, pesquisadora do Instituto Mamirauá.

O projeto Fotovoz é parte da pesquisa “Uma análise antropológica sobre a eficácia de programas de transferência de renda para a segurança alimentar de populações ribeirinhas” desenvolvida por Ana Carolina em três comunidades ribeirinhas da Reserva Amanã: São João do Ipecaçu, Matusalém e Nova Canaã. O estudo visa investigar a relação entre a gestão do recurso financeiro na dieta das mães e adolescentes dessas comunidades. De acordo com Ana, “a ideia é entender como gestão do recurso financeiro no domicílio [provindo do bolsa família] influencia na dieta, se as mulheres têm autonomia sobre esse recurso, como usam o recurso, e a influência nos produtos que adquirem”, entre outros objetivos.

E de acordo com Ana Carolina, uma das ideias da pesquisa, com base na antropologia da alimentação, “é ver os sentimentos envolvidos na alimentação, avaliar se a má ou a boa nutrição está ligada a algum tipo de alimento, algum tipo de tradição”. A pesquisadora também enfatiza que a técnica do Fotovoz, baseada em fundamentos de Paulo Freire, trabalha a valorização do diálogo, do conhecimento individual, da discussão e do pensamento crítico. O que contribui para o acesso às informações sob o ponto de vista dos jovens.

“O Fotovoz contribui muito para a pesquisa, porque mostra quais atividades produtivas estão ligadas à alimentação e como os meninos veem aquela alimentação. No Fotovoz, eles mostraram a preparação de alimentos, a pesca, a farinha, o cultivo. Trouxeram fotos da rotina, dos problemas deles”, reforçou a pesquisadora.

O grupo recebeu sete câmeras digitais e um tablet para trabalharem durante o período de realização do projeto. A ideia era que eles tivessem a liberdade de escolher entre os assuntos que consideravam relevantes para serem expostos em fotografia e texto. Ao longo do projeto, foram feitos encontros entre a pesquisadora e os grupos de adolescentes. De acordo com Ana, o processo foi caracterizado por um constante diálogo e reflexão sobre a vida e adolescência na comunidade.

Os jovens estiveram envolvidos desde o início do projeto, participando da produção dos trabalhos até a montagem da exposição. Os participantes aprenderam um pouco sobre técnica fotográfica, ética e responsabilidade no trabalho fotográfico, praticaram o trabalho em equipe e o pensamento crítico. Além disso, alguns deles tiveram o primeiro contato com noções básicas de informática, de digitação e da prática da produção do texto.

Júnior Xavier de Olivera, de 14 anos, vive na comunidade São João do Ipecaçu desde que nasceu. Ele falou sobre os aprendizados que teve durante sua participação no projeto Fotovoz e como ele e os colegas se envolviam na participação, ajudando uns aos outros. “A gente era igualmente um grupo, o tempo todo junto, no grupo, na reunião. Uns não tinham história, a gente ajudava a fazer”, disse.

A pesquisa

Participam da pesquisa “Uma análise antropológica sobre a eficácia de programas de transferência de renda para a segurança alimentar de populações ribeirinhas” 43 famílias que tem adolescentes entre 12 e 14 anos. As famílias participantes foram acompanhadas, cedendo informações sobre sua dieta, itens na dispensa, dados de antropometria, entre outros. Além dessa parte da pesquisa, conjunta às famílias, também será feita uma análise de isótopos estáveis, que se constitui na análise em laboratório de isótopos de nitrogênio e carbono de amostras de unha coletadas entre as famílias. “Na análise da unha, buscamos ver o consumo de açúcar e carnes industrializadas, principalmente o frango que é muito presente na dieta nessas comunidades”, afirma Ana.

A pesquisa é parte do doutorado em antropologia de Ana de Lima na Universidade de Indiana (EUA) e é financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ), pela Fundação Nacional de Ciências (NSF), dos EUA, e pelo Instituto Mamirauá.

O projeto Fotovoz também ficará exposto na sede do Instituto Mamirauá, em Tefé (AM), no dia 23 de fevereiro, a partir das 10h. 

Financiadores