Populações Humanas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá

Os estudos da pesquisadora Deborah Lima (1993), apresentados no Plano de Manejo da Reserva Mamirauá, mostram que a ocupação na área da Reserva Mamirauá foi iniciada por diversos grupos indígenas, dentre os quais os Omágua predominavam. Com a redução da população ameríndia, pelas guerras e doenças introduzidas com a colonização, grupos remanescentes foram incorporados pelo processo de miscigenação induzido pelo governo português.

No início do século XX, a queda da borracha promoveu o crescimento do número de assentamentos modernos na região do médio Solimões, fundados principalmente por comerciantes e trabalhadores, oriundos das regiões Norte e Nordeste do Brasil, que tinham abandonado as regiões de extração de seringa localizadas a oeste da região. Na várzea, esses primeiros assentamentos produziam lenha para os navios a vapor, em uso na época, além de fornecerem pirarucu, peixe-boi e tartaruga para terceiros. Concentravam-se em torno das feitorias e barracões de "patrões", como eram chamados os comerciantes que controlavam o comércio de produtos extrativos por produtos manufaturados com base no sistema de aviamento.

A partir dos anos 70, foi iniciado um processo de estruturação social dos assentamentos da região, promovido pela igreja católica e seguindo o modelo de comunidades de base. O termo "comunidade", adotado pela maioria dos assentamentos da região, refere-se às localidades que aderiram à proposta da igreja, posteriormente apoiada por diversas instituições de extensão rural, e que possuem uma liderança política eleita pelos moradores. Há ainda núcleos populacionais menores, não organizados segundo o modelo de comunidade, denominados sítios, e ainda, um conjunto pequeno de famílias que, por diversos motivos, preferem morar isoladas desses agrupamentos. A maior parte dos assentamentos da área focal da reserva localiza-se à margem dos principais rios que limitam a área focal, o Solimões, Japurá e o paraná do Aranapu, e apenas algumas casas isoladas se localizam no interior da reserva. As poucas comunidades indígenas existentes na região têm forte grau de miscigenação, tanto cultural quanto biológica.

A produção econômica da população de Mamirauá é tipicamente camponesa, caracterizada pela combinação de uma produção doméstica para consumo direto, principalmente os ítens básicos da alimentação, o peixe e a farinha, e uma produção para venda, constituída de peixe, farinha, madeira e outros produtos em menor escala. Esta produção é vendida para regatões, comerciantes itinerantes que dominam o comércio principalmente naquelas comunidades que ficam mais distantes das cidades, ou diretamente para o mercado de Tefé e Alvarães. A população local é formada por aproximadamente sete mil pessoas.