Página inicial
Retornar ao Site Oficial do Instituto Mamirauá

Página inicial
   
 

Janeiro/Dezembro de 2003. Ano V - Nº 17

Este é um número especial onde homenageamos nosso fundador José Márcio Ayres em seu primeiro ano de falecimento. Com esta edição destacamos sua história de vida e apresentamos os principais resultados dos treze anos de criação da primeira Reserva de Desenvolvimento Sustentável no Brasil.

BIODIVERSIDADE E SOCIEDADE
Texto: José Márcio Ayres

A maior parte da biodiversidade localiza-se nas áreas de florestas tropicais, exatamente onde estão situadas as áreas mais pobres do planeta. A Amazônia tem ainda um terço das áreas de florestas tropicais do planeta e por isso representa um de seus maiores bancos genéticos, tanto pela extensão como por unidade de área. E o que estamos fazendo para proteger esta imensa riqueza biológica? O mesmo que em outros países com extensas áreas de florestas tropicais: uma série de medidas de pouca eficiência. Assim, a ameaça continua apesar destes esforços. De acordo com recentes pesquisas, os locais de maior biodiversidade do mundo inteiro são as florestas amazônicas próximas à cordilheira dos Andes. Apesar da evolução do nosso conhecimento sobre a biodiversidade, sobre modelos de especiação geográfica, variações climáticas e geomorfológicas da região, nosso conhecimento ainda é muito pequeno. E apenas poucas medidas eficientes para a conservação da biodiversidade foram tomadas ao longo destes anos.

Em geral, as populações pobres que vivem nas áreas são excluídas do processo e dos benefícios oriundos da proteção dessas importantes áreas de biodiversidade. A erradicação da pobreza é necessária para uma melhor proteção, manejo sustentado dos recursos ambientais, uso eficiente da capacidade produtiva e proteção do ambiente global. Conservação e manejo sustentável do ambiente estão no centro da questão para a eliminação da pobreza. Esta é a razão porque os problemas ambientais devem ser tratados a nível local, nacional e internacional. Existe uma ligação muito forte entre pobreza e degradação ambiental. A pobreza é sempre vítima da degradação ambiental, desastres naturais e manejo displicente do meio ambiente. É, no entanto, irrealista esperar que as populações pobres possam ter o mesmo nível de preocupação ambiental enquanto continuam a viver na pobreza, com raras oportunidades para melhorar sua qualidade de vida. Para se fazer manejo apropriado dos desafios ambientais é essencial que se leve em consideração as necessidades das populações humanas, em especial daquelas faixas mais carentes. Para se erradicar a pobreza são necessárias soluções sustentáveis do ponto de vista econômico e social. Instituições eficientes, legislação pertinente, conscientização melhorada, acesso maior ao conhecimento e melhor manejo com base fortemente científica são fatores chave neste importante processo. Soluções ambientais adequadas só podem ser feitas através de intenso melhoramento do conhecimento científico através de pesquisa básica sobre os mais importantes recursos econômicos e um conhecimento adequado dos processos ecológicos e evolutivos. Assim, a conservação da biodiversidade passa por questões profundas de justiça social e do melhoramento da qualidade de vida das populações mais carentes do planeta.

"A Reserva Mamirauá é extremamente importante para a preservação da várzea na Amazônia. É o último pedaço de várzea que ainda é pouco destruída. Essa é a nossa última chance de preservar um dos ambientes mais produtivos"

Márcio Ayres

Na Amazônia, além dos problemas sociais destacados acima, precisamos investir bastante na melhoria da base científica do manejo dos recursos naturais, envolvendo todos os atores da sociedade. O Brasil tem leis ambientais louváveis, mas a baixa governabilidade nesses rincões da Amazônia é um fator que considero primário na questão da conservação da biodiversidade e justiça social. Uma conhecida frase do escritor irlandês Oscar Wilde reflete isso muito bem: “Só há uma coisa pior do que a injustiça, é a justiça sem a espada na mão. Sem força, o direito age a favor do mal.”

JOSÉ MÁRCIO AYRES
UMA VIDA DEDICADA À CONSERVAÇÃO DA AMAZÔNIA
Texto: Helder Queiroz e Andréa Pires

José Márcio Corrêa Ayres nasceu em Belém em 21 de fevereiro de 1954, e tornou-se um dos cientistas brasileiros mais respeitados e premiados na área de Conservação da Biodiversidade. Filho do Dr. Manoel Ayres, professor da Universidade Federal do Pará, iniciou seus estudos no Núcleo Pedagógico da UFPA-NPI. Formou-se em 1976 pela Universidade de São Paulo no, então recém criado, Curso de Ciências Biológicas. Ainda na graduação, suas habilidades gestoras já floresciam, sendo o administrador do zoológico de Ribeirão Preto aos vinte anos. Apaixonado pelos primatas, ainda muito jovem já era reconhecido como um dos mais importantes primatólogos brasileiros.

Logo após sua graduação, ingressou no curso de mestrado em Ecologia do Instituto de Pesquisas da Amazônia (INPA). Estudando a sócio-ecologia do Cuxiú-Preto na região norte de Mato Grosso e no Pará, deparou-se com as grandes ameaças à imensa floresta, e sensibilizou-se em relação à importância de áreas-chave para a conservação da biodiversidade brasileira. Assim, o jovem cientista encontrou o que seria seu principal objetivo: criar e gerir unidades de conservação em áreas ecologicamente importantes para promover a conservação da biodiversidade brasileira.

Ao realizar sua pesquisa para a tese de doutoramento pela Universidade de Cambridge, José Márcio desembarcou na região do médio Solimões no início dos anos 80. As matas de várzea do Mamirauá, até então quase desconhecidas cientificamente, eram alvo de ameaças ambientais. Márcio identificou a necessidade de se criar ali uma área oficialmente protegida para salvar da extinção o primata uacari-branco, (Cacajao calvus calvus) uma espécie até então só conhecida através das descrições de Henry Bates de meados do século XIX. Por meio de propostas feitas ao governo do estado do Amazonas, o biólogo foi diretamente responsável pela criação da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, a primeira no Brasil, que juntamente com a Reserva Amanã compõe mais de três milhões de hectares de floresta tropical protegidas. Márcio lutou muito para que estas reservas não permanecessem apenas no papel e criou um sistema de gestão participativa que incluía a população local no manejo e vigilância de seus próprios recursos.

"Algumas pessoas ainda pensam que podem proteger as reservas somente com guardas, mas isto já se mostrou insuficiente. Um envolvimento mais amplo da população é necessário para a conservação ser um sucesso, além de investimentos a longo prazo em educação, saúde e participação política"

Márcio Ayres

José Márcio empenhou-se, incansavelmente, na transformação do Projeto Mamirauá no Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, destinado à conservação da biodiversidade das florestas alagadas da Amazônia através do uso sustentado e participativo de seus recursos naturais renováveis.

Os resultados positivos da inovadora experiência de conservação e manejo das Reservas lhe renderam o reconhecimento internacional na área da Biologia da Conservação. O modelo de desenvolvimento sustentável que ele idealizou para a região, atravessou o mundo, foi com ele reconhecido e premiado várias vezes e está mostrando saídas novas para a humanidade.

No dia 7 de março de 2003 a humanidade perdeu este grande cientista. Ele se foi cedo, deixando um enorme vazio, um horizonte e uma herança que nós devemos merecer. Estas obras da natureza amazônica, às quais ele tanto se dedicou, são escolas de vida, símbolos da ciência a favor do homem, exemplos de preservação e de justiça social, uma promessa para o planeta em crise.

Um de seus principais legados foi ter formado uma equipe sólida de pesquisadores, amigos e colaboradores que compartilham de seus ideais e que estão dando continuidade à sua missão.

 

 
Copyright © 2002 - Mamirauá, todos os direitos reservados       |        Desenvolvido pela CA . INTERATIVA